Não que isso seja uma grande novidade para os fãs de Jornada nas Estrelas. Acontece que, como reportado por Jesús Diaz lá do Gizmodo, os notebooks estão morrendo.
A notícia é que a venda dos notebooks vem sofrendo uma queda do crescimento, principalmente após Janeiro deste ano, quando o iPad foi anunciado. Hype ou não, a queda nas vendas estava prevista pelo menos desde 2009, quando o WSJ reportou que era hora de deixar os laptops para trás.
Vou te contar uma história. Minha sobrinha vai assumir um cargo de gerência em uma multinacional em Portugal. Como parte das atribuições, ela precisa estar sempre em movimento. E como parte dos benefícios, ela vai receber um Blackberry. O aparelho vai ser necessário para receber emails e gerenciar sua agenda, que poderá ser controlada pela empresa.
Isso está acontecendo em todo lugar. Email, agenda e Internet, antes possível apenas com o uso de um notebook, agora podem ser acessados via um aparelho de 15 centímetros e tamanho. E com vantagens: mais leve, mais ágil, mais eficiente.
Mas minha sobrinha vai receber também um laptop. Esse vai servir para criar relatórios e acessar as aplicações da empresa – web ou desktop.
É nesse nicho que os pads podem se mostrar um melhor form-factor. É no lugar de notebooks de baixo desempenho e netbooks que o formato pad pode se destacar. Não por acaso, a venda de netbooks vem caindo desde 2009.
Afinal, por que os netbooks existem?
Sempre houve uma necessidade (pelo menos é isso o que o mercado acredita) de transformar o computador pessoal em algo mais móvel. Existe a necessidade para profissionais on-the-go de:
- Ler emails
- Ler noticias
- Marcar, ver compromissos
- Criar relatórios, artigos
- Usar aplicativos da empresa
Para o usuário comum, é interessante uma forma mais simples de:
- Navegar na internet
- Ver emails
- Comunicação instantânea (IM, Skype)
- Criar documentos (na escola, pelo menos)
- Ver fotos
- Assistir vídeos
- Ouvir música
- Jogar!
Smartphones e palmtops (descansem em paz) são interessantes, mas não podem fazer tudo isso. Notebooks podem, mas são algo como overkill: são pesados, grandes, e desnecessariamente potentes, drenando mais bateria que o ideal. Netbooks eram a escolha óbvia então. Não fogem do seguro look and feel de um notebook, mas são mais adaptados para agilidade e eficiência.
Então, Steve Jobs assistiu muitos episódios de Jornada, e resolveu que a Apple podia adiantar o futuro. E todo mundo seguiu atrás.
O alvorecer do futuro
Um parênteses antes de continuar. Quando eu menciono pad, eu estou me referindo ao formato, ou seja, um aparelho leve, com uma tela gigante sensível ao toque para computação pessoal – e não especificamente o iPad, o aparelho da Apple.
O pad é o substituto perfeito para o netbook e notebooks. Eles possuem telas maiores que smartphones, permitindo uma usabilidade bem mais avançada que a pequena tela do telefone. E são bem superiores em facilidade de uso do que um netbook. Quando uma avó de 99 anos pode usar um computador como uma geek, você sabe que acertou na usabilidade.
O que sabemos é que o mouse é um mal necessário. Não há precisão como o mouse, mas ele requer uma superfície. Isso sozinho já reduz versatilidade de um aparelho móvel. Touchpads de notebooks são ok, mas requer uma técnica maior ainda. Com telas sensíveis a toque, não há metáfora, não há abstração: você literalmente toca o que você quer tocar. Não há nada mais óbvio que isso, e minha mãe pode usar um computador (não é ela ali em cima).
O que ainda falta
Há quem diga que os pads na atual concepção ainda não são o aparelho final que vai substituir tudo. Ainda falta alguns pequenos detalhes para a dominação mundial. Mas se já não estamos lá, estamos muito perto.
Teclado e suporte
Essa é uma grande questão. Há os proponentes do teclado físico, e há quem diga que isso não é necessário.
A verdade é que a resposta táctil na digitação é uma mão na roda, principalmente para aqueles com visão comprometida. Por outro lado, um teclado no aparelho ocupa espaço útil (que deveria ser tela).
Outro problema crônico dos pads é justamente a falta de suporte – no sentido de apoio mesmo. Segurar um iPad no braço e digitar não é para os fracos. Sentar em uma posição ereta em uma mesa e digitar num pad não é confortável.
A saída é incorporar no aparelho um teclado e uma forma de suporte. A Dell está no caminho certo, mas desde que isso não comprometa o peso e tamanho. Ou usar acessórios. Um acessório matador seria aquele que oferecesse suporte, teclado, proteção e leveza para o pad. E eles já existem.
Documentos
Convenhamos, todos nós estamos ligados ao Microsoft Office. Mesmo que eu não queira usá-lo. A necessidade de ler e criar documentos .doc vai ser uma presença por uma bom tempo.
Os pads precisam lidar com isso. E podem fazer isso de duas formas: ou os pads precisam incorporar um editor desse formato localmente, ou os documentos precisam deixar o computador e ir para a web.
Office no Windows é impraticável. Porque o Windows no pad é impraticável (veja mais daqui a pouco). O OpenOffice é OK, mas ainda precisamos vê-lo em uma distribuição Linux decente que não precise de grande processamento. As melhores soluções atualmente são do iPad, mesmo porque foram pioneiras. O aplicativo Pages possui algum suporte a arquivos .doc, e você sempre pode contar com o Documents-to-go.
A alternativa é mover os documentos para a nuvem e usar aplicações web. O Google Docs já está aí há algum tempo e é o primeiro nome que vem à cabeça. A Microsoft conta com o Office Live Workspace para concorrer na área. Temos o Sharepoint para as empresas que querem controlar o conteúdo, e até um cliente de Sharepoint para iPad.
De qualquer forma, as soluções para arquivos de escritório estão aí.
Sistema operacional
Quem duvida ainda que um pad precisa ter um sistema operacional compatível com o formato? O iOS da Apple foi uma grande sacada, e os desenvolvedores podem se beneficiar de uma mesma API para seus programas. É, de longe, o sistema operacional mais bem preparado para o formato. O Android ainda não está otimizado para pads, mas nada que não se corrija em uma ou duas versões. Nada se fala de grande no mundo dos Linuxes. Enquanto que a Microsoft…
A Microsoft ainda insiste em usar o Windows em pads. De certa forma, faz sentido. Afinal, se estamos falando sobre substituir os notebooks por pads, também estamos falando que aquele sistema legado da empresa que foi feito para o notebook com Windows também vai rodar no pad.
Mas sabemos que o Windows puro simplesmente não vai funcionar no pad. Mesmo que hajam skins maravilhosas para melhorar a interface da Área de Trabalho, os sistemas feitos para Windows podem não trabalhar perfeitamente. Os menus não são dedáveis. Os botões são muito pequenos. A tela não rola quando o teclado virtual fica em cima de um campo de formulário. Sem falar no desempenho do Windows, que requer quantidade massiva de processamento, e bateria.
Bem, a Microsoft lançou nesse último mês o Windows Phone 7, e as ferramentas de desenvolvimento para o sistema operacional de telefone. Steve Balmer já chegou a dizer que não há plano nenhum em colocar o WP7 nos pads, e pelo que eu andei lendo, ele realmente não foi feito para isso. Mas há quem diga que ainda é possível. Para o desenvolvedor, isso seria bom. Se não pudermos ficar com o Windows, pelo menos teríamos uma única API em dois formatos para nos preocupar – que por acaso é quase a mesma coisa que estava por aí faz alguns anos.
E ainda temos o WebOS e o ChromeOS. Nenhum deles deu a graça em pads ainda, mas o WebOS sempre foi bem aclamado pelo seu multitarefa. A HP disse que tem pads com WebOS saindo em 2011, então só precisamos aguardar. As idéias de multitasking do WebOS foram parar no Chrome OS, que usa quase as mesmas metáforas: aplicações ocupam a tela inteira e são facilmente alternáveis. O problema do ChromeOS é que ele roda exclusivamente aplicações web, e isso pode ser um problema para os que requerem que as aplicações fiquem armazenadas localmente.
A morte do notebook (como é hoje)
Agora considere as características:
- Portátil
- Leve
- Consumo eficiente
- Conectado
- Fácil de usar
Parece um netbook, certo? Mas são as características de um pad. Além disso, conte que:
- Aplicações promovem a eficiência
- É realmente usável. Acelere sua produtividade com interfaces de toque
- Você pode esquecer o teclado quando não precisa dele, ou pode usá-lo se precisar de longos trabalhos de digitação.
Não é à toa que os netbooks estão morrendo. E levam junto os notebooks de baixo desempenho.
No entanto, não é acreditável que os notebooks irão morrer por completo. O pad é, essencialmente, um aparelho leve. Isso, hoje, implica em baixo desempenho. Algumas aplicações ainda irão requerer o processamento de um bom notebook:
- Designers gráficos
- Edição de vídeo
- Desenvolvimento de aplicações
- Jogos de alto desempenho
Portanto, é provável que, a médio prazo, o mercado de computação móvel esteja segmentado em smartphones, pads, e notebooks de alto desempenho. Isso significa morte aos notebooks de baixo desempenho.
Claro que nada impede que, no futuro, um pad seja tão potente que eu possa fazer edição de vídeo nele, ou chegar em casa, encaixá-lo num dock, e usar mouse, teclado e uma tela de 30 polegadas para jogar um pouco. Estamos quase lá, sim senhor.